Durante meus anos atuando na área contábil e pericial, presenciei inúmeras discussões sobre apuração de haveres em processos de dissolução societária. Na prática, percebo que essa é uma das atividades mais delicadas e complexas para contadores, advogados, economistas e administradores.
A maioria das pessoas associa valuation apenas à precificação de empresas para venda ou investimento. Mas, especialmente quando falamos em partilha societária, valuation assume papel estratégico, demandando cuidados específicos. Nesta jornada, quero compartilhar minha visão e experiência sobre como realizar avaliação de empresas nesse contexto, os dilemas mais comuns e apontar oportunidades de atuação profissional para quem busca capacitação no setor – aproveitando os recursos que o IBCAPPA oferece.
Entendendo o que é apuração de haveres
Sempre que participo de processos judiciais ou consultorias para sociedades limitadas que estão em vias de dissolução parcial ou total, surge a dúvida: “O que realmente significa apuração de haveres?”. Não é simplesmente um cálculo de quanto vale o capital investido. Apuração de haveres é o procedimento que determina o valor de participação de um sócio que deixa a sociedade, seja por retirada, exclusão ou falecimento, com base no valor patrimonial da empresa em determinada data.
O Código Civil Brasileiro, em seus artigos 1.031 e 1.032, disciplina a retirada do sócio e a apuração do seu quinhão, apontando que o montante do reembolso deve considerar a situação patrimonial da empresa. Uma confusão frequente é pensar que patrimonial significa apenas o que consta no balanço contábil. Na verdade, envolve considerar o valor justo de mercado dos ativos e passivos.
Justo não significa simples.
Segundo pesquisa da USP sobre balanço de determinação, o valor a ser atribuído à participação societária, em regra, deve refletir o patrimônio líquido ajustado a preços de mercado. Esse ajuste, por si só, pode envolver avaliações complexas de bens materiais e imateriais.
Valuation e apuração de haveres: semelhanças e diferenças
O termo valuation tem se popularizado, e muita gente me pergunta se é simplesmente sinônimo de apuração de haveres. Em algumas reuniões, ouvi: “É só pegar um relatório de valuation e resolver o processo?” Respondo sempre: Valuation é o processo de avaliação do valor econômico de uma empresa, enquanto apuração de haveres é um procedimento específico, realizado durante a dissolução societária, para definir o valor devido ao sócio retirante.
Um estudo da USP esclarece que a perícia contábil aplicada em dissoluções societárias precisa usar métodos e modelos adequados, adaptando-os à dinâmica empresarial e processual. Ou seja, valuation pode ser uma etapa dentro da apuração de haveres, mas este procedimento é mais amplo, pois precisa respeitar não só a técnica contábil, mas também a legislação, cláusulas contratuais, decisões judiciais e, acima de tudo, a finalidade do processo: a equidade entre as partes.
Por que a confusão acontece?
Para a maioria dos empresários, sócios e até mesmo profissionais do direito, valuation e apuração de haveres se confundem porque ambos tratam do valor econômico da empresa. No entanto, os critérios e métodos de cálculo podem, e geralmente vão, variar a depender da motivação do laudo pericial.
- No valuation tradicional, buscam-se múltiplos de mercado, potencial de rentabilidade e liquidez para investidores externos.
- Na apuração de haveres, o foco é o valor da parte do sócio na data-base determinada, considerando ativos, passivos, receitas, expectativas e até mesmo ajustes excepcionais impostos por contrato ou por ordem judicial.
Já vi sociedades onde a diferença entre o valor apurado para um sócio retirante e o valor estimado por investidores externos ultrapassava 30%. Isso altera drasticamente a dinâmica de negociação e, muitas vezes, é motivo de novas disputas judiciais.

Procedimentos na apuração de haveres: passo a passo prático
Costumo dividir o processo prático em etapas, sempre atento à especificidade do caso. O procedimento típico de apuração de haveres envolve as seguintes fases:
- Levantamento e análise dos documentos societários – Contrato social, aditivos, assembleias, balanços patrimoniais, demonstrações financeiras, laudos anteriores. Esta análise é fundamental para entender as regras internas e eventuais cláusulas de previsão de saída de sócios.
- Definição da data-base – A legislação estabelece que se deve usar o balanço mais próximo do evento de retirada. Em casos de litígio, pode ser necessário elaborar um balanço de determinação, focando na data da dissolução parcial.
- Levantamento dos ativos e passivos ajustados a valor de mercado – Aqui começa um dos maiores desafios: atualizar o valor dos bens, direitos e obrigações ao preço de mercado, e não apenas ao valor contábil registrado.
- Identificação e avaliação dos ativos intangíveis – Marcas, patentes, carteira de clientes, fundo de comércio, softwares, reputação. Segundo um estudo da USP, boa parte da riqueza de sociedades modernas reside em ativos intangíveis, cuja mensuração demanda conhecimento técnico e métodos como o fluxo de caixa descontado.
- Ajustes de contingências, provisões e eventos subsequentes – Passivos ambientais, processos judiciais, contratos significativos não contabilizados, benefícios futuros e riscos não esperados devem ser identificados e mensurados conforme a data-base.
- Apuração do valor a ser pago ao sócio – Após os ajustes necessários, calcula-se a participação do sócio com base em sua fração societária.
Interpretar esses pontos exige prática e estudo. Em meu trabalho, já precisei buscar capacitação adicional e discuti essas questões em grupos especializados, como o que temos no IBCAPPA, onde dúvidas sobre situações não previstas em livros se tornam verdadeiros estudos de caso.
Desafios mais comuns na avaliação para dissolução societária
Com o tempo, aprendi que a parte técnica do cálculo nem sempre é o maior obstáculo. Existem desafios de natureza documental, emocional, judicial e negocial que influenciam diretamente o resultado da apuração.
- Dificuldade de acesso à documentação. Em muitos casos, sócios conflitantes tentam dificultar o acesso, sonegando registros ou omitindo informações importantes.
- Avaliação de ativos intangíveis. Como atribuir valor correto para uma marca em litígio? E se a carteira de clientes está comprometida com a saída do sócio?
- Contabilização de dívidas e obrigações fiscais futuras. Decidir o que entra ou não no balanço de determinação demanda interpretação e justificativa técnica.
- Ambientação e imparcialidade do perito. Segundo pesquisadores da USP, a perícia contábil em dissoluções ocorre em ambiente litígio, com elevado grau de desconfiança entre os envolvidos, o que torna a comunicação e negociação difíceis.
- Decisões judiciais divergentes. Já tive casos em que, após todo o trabalho, o juiz determinou ajustes inesperados no laudo, adaptando critérios de acordo com jurisprudências recentes.

Principais métodos utilizados em apuração de haveres
Mesmo existindo o respaldo legal para uso do balanço ajustado, profissionais devem estar preparados para adaptar métodos e justificar escolhas técnicas. Costumo aplicar os seguintes métodos, de acordo com a orientação do processo:
- Balanço de determinação: Avalia todos os ativos e passivos pelo valor de mercado, eliminando efeitos de manipulação contábil.
- Fluxo de caixa descontado: Bastante utilizado quando existem ativos intangíveis relevantes, como destaca o estudo da USP sobre valorização de ativos intangíveis.
- Método do patrimônio líquido ajustado: Atualiza o patrimônio da empresa pelo valor justo de mercado.
- Métodos híbridos ou adaptados: Em casos específicos, já vi decisões que combinaram diferentes abordagens para ajustar o resultado às peculiaridades do contrato social ou decisão judicial.
O mais importante, em minha opinião, é demonstrar transparência, tecnicidade e rastreabilidade dos cálculos durante todo o processo.
Ativos intangíveis: um dos maiores desafios
Ativos como marcas, patentes, know-how, contratos exclusivos, carteira de clientes e reputação costumam ser subestimados nos primeiros cálculos. Estudos como o publicado pela Universidade de São Paulo demonstram que o valor desses ativos está diretamente ligado à expectativa de geração de caixa no futuro. Aplicar apenas métodos patrimoniais nesses casos pode gerar distorções relevantes.

Quando estou diante de situações assim, opto, sempre que possível, por estimar o fluxo de caixa incremental gerado pelo ativo, descontando o valor ao presente e apresentando laudo claro e justificado. Já presenciei contestações severas por parte do sócio retirante, exigindo laudos complementares para ativos cuja existência sequer estava formalizada em balanço.
Diferenças no cálculo em dissídios judiciais e extrajudiciais
Outro ponto fundamental: a metodologia pode variar muito dependendo se estamos diante de dissolução extrajudicial (consensual ou amigável) ou de um processo litigioso na Justiça. No rito judicial, o juiz pode determinar perícia técnica independente, exigir laudos complementares e adaptar os critérios conforme necessidade de equidade e segurança jurídica. O procedimento é formal, regulamentado e sujeito a prazos e ampla defesa.
Já em dissoluções consensuais, a negociação direta permite ajustes e critérios personalizados, desde que aceitos por todos os sócios. Neste contexto, o profissional precisa demonstrar habilidades de mediação e comunicação, além do domínio técnico. Já participei de acordos em que a base de cálculo foi negociada diretamente, dando maior flexibilidade ao processo.
Por onde contadores e peritos podem se especializar?
Posso afirmar, com base na minha prática, que o campo de atuação para contadores e peritos em apuração de haveres vem crescendo rapidamente, especialmente porque economistas agora também podem se credenciar nessa área, conforme anunciado pelo CORECON-PR. Os tribunais passaram a valorizar competências técnicas específicas, e profissionais com capacitação diferenciada possuem mais oportunidades de nomeação, destaque nos fóruns e maior remuneração.
Destaco que o IBCAPPA mantém cursos atualizados sobre avaliação de empresas, perícia judicial, laudos de apuração, ativos intangíveis e outros tópicos relacionados. Um dos cursos mais procurados é o de Avaliação de Empresas: Valuation na Prática, que mostra desde conceitos básicos até situações avançadas em dissoluções societárias. Há também o livro Valuation: Uma Abordagem Prática, fundamental para quem quer compreender os elementos do cálculo de valor econômico nas mais diversas hipóteses.
Não posso deixar de recomendar a leitura periódica dos conteúdos produzidos sobre valuation e apuração de haveres no blog, além do curso específico de fundo de comércio, cada vez mais relevante no contexto de dissolução de sociedades de pequeno e médio porte.
Como a experiência prática faz diferença?
No início da minha carreira, eu me concentrava muito na parte técnica, sem compreender o valor da comunicação entre as partes e o caráter muitas vezes emocional do processo. Com o tempo e participação em mais de duas dezenas de processos, aprendi que um laudo bem construído, transparente e detalhado facilita acordos e reduz pedidos de impugnação. Já vi colegas enfrentarem sucessivos questionamentos judiciais simplesmente por não detalharem as etapas de avaliação.

Participar de fóruns, estudar decisões judiciais recentes e interagir em comunidades especializadas como a criada pelo IBCAPPA elevaram minha segurança e assertividade. O suporte, tanto técnico quanto jurídico, faz diferença. Ninguém nasce sabendo argumentar diante de bancos de sócios, advogados e juízes. São aprendizados que se constroem ao longo do tempo, com estudo constante e troca de experiências.
Conclusão: avaliação, ajuste e transparência para dissoluções seguras
Apuração de haveres é bem mais do que um cálculo frio. Ela exige conhecimento técnico, leitura do contexto societário, atenção à legislação vigente e, acima de tudo, transparência e dialética em todo o processo de dissolução societária.
Ao longo deste artigo, compartilhei não só os principais passos e dilemas dessa jornada, mas também reforcei o quanto a atuação qualificada pode transformar conflitos em soluções justas e seguras. Em minha vivência, vi que os profissionais que se dedicam à formação contínua, apropriando-se de técnicas modernas de valuation, destacam-se nesse mercado em franca expansão.
Se você também deseja melhorar suas competências nessa área, convido a conhecer as aulas, livros e a comunidade do IBCAPPA. Entre em contato, experimente gratuitamente alguns conteúdos e fortaleça sua atuação profissional. Essa especialização pode fazer toda a diferença para seu crescimento e reconhecimento no setor!
Perguntas frequentes sobre apuração de haveres
O que é apuração de haveres?
Apuração de haveres é o procedimento pelo qual se calcula o valor a ser pago ao sócio que está se desligando de uma sociedade, com base na avaliação do patrimônio líquido da empresa ajustado a valor de mercado, na data de saída ou dissolução. Esse cálculo visa garantir ao sócio retirante o recebimento justo pela sua participação, considerando todos os bens, direitos e obrigações da sociedade.
Como calcular os haveres em uma sociedade?
O cálculo dos haveres geralmente começa com a elaboração de um balanço de determinação na data-base definida pelo contrato social ou pela Justiça. Após identificar todos os ativos e passivos, realiza-se o ajuste dos valores para refletirem a realidade de mercado. Em muitos casos, inclui-se também a avaliação de ativos intangíveis e de contingências. O valor apurado é então proporcional à fração societária do sócio retirante.
Quando é necessário fazer avaliação de haveres?
A avaliação de haveres é necessária quando ocorre a saída, exclusão ou falecimento de sócio, assim como em processos de dissolução parcial ou total de sociedades. Também pode ser requerida em situações de reestruturação societária, quando há necessidade de calcular o valor real da participação para fins de negociação ou pagamento.
Qual o custo de uma apuração de haveres?
O custo pode variar bastante, dependendo do porte da empresa, do volume de ativos a serem avaliados, da complexidade dos intangíveis e da quantidade de laudos ou perícias complementares necessários. Geralmente, inclui honorários de peritos contábeis, eventuais especialistas (engenheiros para ativos físicos, consultores para intangíveis) e custos operacionais. Em processos judiciais, esses valores são fixados ou homologados pelo juiz.
Quem pode fazer a apuração de haveres?
A apuração pode ser conduzida por peritos contábeis registrados, especialmente em casos judiciais, mas também podem atuar economistas, administradores e outros profissionais capacitados. Segundo normas recentes, inclusive decisões como a do CORECON-PR, economistas passaram a ter espaço qualificado nessa atividade, desde que demonstrem competência técnica específica.